quinta-feira, 29 de junho de 2017

Palavra de Vida de Julho 2017

Palavra de Vida de Julho 2017
Por do Sol em Beja
28 Junho 2017
“Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso.” (Mt 11,28)

Cansados e carregados de fardos: essas palavras nos sugerem a imagem de pessoas – homens e mulheres, jovens, crianças e anciãos – que de algum modo carregam pesos ao longo do caminho da vida e esperam que chegue o dia em que possam livrar-se deles.
Neste trecho do Evangelho de Mateus, Jesus apresenta um convite: “Vinde a mim…”.
Ele estava rodeado pela multidão que tinha vindo para vê-lo e ouvi-lo; muitos deles eram pessoas simples, pobres, com pouca instrução, incapazes de conhecer e respeitar todas as complexas prescrições religiosas da época. Além disso pesavam sobre eles os impostos e a administração romana como um peso muitas vezes impossível de suportar. Eles viviam preocupados e à procura de uma oferta de vida melhor.
Com o seu ensinamento, Jesus mostrava uma atenção particular para com eles e para com todos aqueles  que estavam excluídos da sociedade por serem considerados pecadores. Ele desejava que todos pudessem compreender e acolher a lei mais importante, aquela que abre a porta da casa do Pai: a lei do amor. Com efeito, Deus revela as suas maravilhas a todos o que têm o coração aberto e simples.
Mas Jesus quer convidar também a nós, hoje, a nos aproximarmos Dele. Ele se manifestou como o rosto visível de Deus que é amor, um Deus que nos ama imensamente, do modo como somos, com as nossas capacidades e os nossos limites, as nossas aspirações e os nossos fracassos! E nos convida a nos confiarmos à sua “lei”, que não é um peso que esmaga, mas um fardo leve, capaz de preencher de alegria o coração de todos os que a vivem. Ela exige o empenho de não nos fecharmos em nós mesmos, mas, ao contrário, de fazermos da nossa vida um dom cada vez mais pleno aos outros, dia após dia.
“Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso.”
Jesus faz também uma promessa: “… vos darei descanso”.
De que modo Ele nos dá esse descanso? Antes de tudo com a Sua presença, que se torna mais nítida e profunda em nós quando o escolhemos como referencial da nossa existência; depois, com uma luz particular, que ilumina os nossos passos de cada dia e nos faz descobrir o sentido da vida, mesmo quando as circunstâncias externas são difíceis. Se, além disso, começarmos a amar como o próprio Jesus amou, encontraremos no amor a força para seguir adiante e a plenitude da liberdade, porque é a vida de Deus que abre espaço em nós.
Assim escreveu Chiara Lubich: “… um cristão, que não estiver sempre na disposição de amar, não merece ser chamado de cristão. Isso porque todos os mandamentos de Jesus se resumem em um único mandamento: o amor a Deus e ao próximo, em quem devemos reconhecer e amar Jesus. O amor não é mero sentimentalismo: ele se traduz em vida concreta, no serviço aos irmãos, principalmente os que estão ao nosso lado; começando pelas pequenas coisas, pelos serviços mais humildes. Diz Charles de Foucauld: ‘Quando amamos alguém, estamos bem concretamente nele, estamos nele com o amor, vivemos nele com o amor, não vivemos mais em nós mesmos, somos desapegados de nós mesmos’1. E é por causa deste amor que a sua luz abre caminho em nós, a luz de Jesus, segundo a sua promessa: “Quem me ama… me manifestarei a ele.”2 O amor é fonte de luz: amando compreende-se mais Deus, que é amor.”3
Vamos acolher o convite que Jesus nos faz de ir ao seu encontro, e vamos reconhecê-lo como fonte da nossa esperança e da nossa paz.
Vamos acolher o seu “mandamento” e esforçar-nos por amar, como Ele fez, nas mil e uma ocasiões com que deparamos cada dia na família, na paróquia, no trabalho: vamos responder à ofensa com o perdão, vamos construir pontes em lugar de muros, vamos colocar-nos a serviço de quem está debaixo do peso das dificuldades.
Descobriremos que essa lei não é um peso: pelo contrário, ela nos dá asas que nos farão voar mais alto.
Letizia Magri
1 Charles de Foucauld, Scritti Spirituali, VII, Roma : Città Nuova, 1975, p. 110.
2 Jo 14,21
3 Cf. Chiara Lubich, Palavra de Vida  Permanecer na Luz, revista Cidade Nova, maio de 1999.

Reproduzido pelo Blog do Ademir Rocha

Notícias
Budistas e cristãos em diálogo/1
23 Junho 2017
No final de abril, em Taiwan, realizou-se o VI Simpósio Budista-Cristão, organizado pelo Centro do Diálogo inter-religioso dos Focolares, com vários parceiros cristãos e budistas. Primeira parte.
O evento seguiu uma fórmula inédita, marcada por três momentos distintos, seja pelo lugar onde aconteciam seja pelo contexto religioso, revelando-se como uma espécie de peregrinação de diálogo, compreendido como um caminho comum, uma fórmula cara ao Papa Francisco que, repetidamente, sugere continuar a caminhar juntos, binômio fundamental para o grande canteiro de obras que é o diálogo inter-religioso.
A primeira parte do evento foi realizada na Fu Jen University, prestigiosa universidade católica da ilha. O título – “Budistas e cristãos em diálogo: dos escritos dos missionários ao diálogo inter-religioso” – por si só mostrava-se convidativo. Propunha uma reflexão sobre quanto mudou o mundo das religiões desde quando os primeiros missionários chegaram ao Oriente, a partir do século XV, até hoje, quando se trabalha em uma das necessidades fundamentais da humanidade: o diálogo entre homens e mulheres que creem, qualquer que seja a sua fé.
O dia de reflexão foi organizado conjuntamente, além de que pela universidade católica de Taiwan, também pelo Instituto Universitário Sophia com o Centro do Diálogo Inter-religioso do Movimento dos Focolares, e pelo Dharma Drum Montain, mosteiro e universidade budista, que representa um dos centros de renovação fundamental do Budismo Chan, da China. Cerca 70 eram os participantes, muito qualificados: um grande número de monges theravada e leigos budistas e católicos da Tailândia, um grupo de Taiwan, o presidente do Dharma Drum Institute for Liberal Arts, além de autoridades no campo acadêmico.
Os trabalhos suscitaram imediatamente grande interesse. As apresentações que diziam respeito aos escritos dos missionários concentraram-se no período entre os séculos XIV e XIX. Mas, o centro nevrálgico das reflexões foi Matteo Ricci, jesuíta, grande apóstolo do cristianismo nesta parte do mundo, mestre da arte da adaptação, o que lhe permitiu chegar à alma dos povos da China. Contudo, justamente Ricci esteve no centro do interesse pela sua posição por nada complacente diante do budismo, visto por ele e por muitos seus contemporâneos como um amontoado de ritos e manifestações pagãs. Os missionários, nos séculos que vão do XV ao XX, não foram absolutamente abertos diante dos seguidores de Buda, e nos debates procuraram demonstrar quem seguia o verdadeiro Deus e a verdadeira religião. Os trabalhos revelaram ainda a posição crítica dos seguidores de Buda com relação aos cristãos. Evidenciou-se como, sobre estes pontos, nutrem-se sentimentos recíprocos.
Precisamente este pano de fundo histórico, diante do qual também nós, católicos, não podemos negar a necessidade de um adequado exame de consciência por erros determinados por atitudes discriminantes, salientou o valor da experiência destes últimos 60 anos. Atualmente o diálogo está bem encaminhado, com relações de confiança recíproca, ainda se com pontos que necessitam ser esclarecidos e, eventualmente, defendidos, para garantir identidades precisas e evitar sincretismos.
No decorrer dos trabalhos foram apresentadas experiências concretas de diálogo, em Hong Kong, na Coreia, na Tailândia e nas Filipinas, mas também propostos exemplos de novos atores, como os movimentos eclesiais, e de protagonistas reconhecidos como pioneiros de uma experiência de diálogo que, em seguida, seguiu as pistas deixadas por eles. O exemplo da amizade espiritual entre Chiara Lubich e Nikkyo Niwano, fundadores, respectivamente, do Movimento dos Focolares e da Rissho Kosei Kai, evidenciou como os movimentos de renovação, que caracterizam da cerca um século as várias religiões, ainda que de maneiras diferentes e características das respectivas culturas e credos, sejam veículos de encontro e amizade entre pessoas e comunidades.
Estes dois sentimentos caracterizaram os trabalhos do primeiro dia do simpósio-peregrinação, num confronto sereno sobre o caminho percorrido nestes séculos, abrindo à esperança de um futuro de partilha recíproca e colaboração nos grandes desafios da humanidade: a justiça social, o ambiente e a paz. (Continua)
De Roberto Catalano
Reproduzido pelo Blog do Ademir Rocha
 
Palavra de Vida – Junho de 2017
29 Maio 2017
Obra de Duxtei Vinhas
“Como o Pai me enviou também eu vos envio.” (Jo 20,21)

Nos dias que se seguiram à crucifixão de Jesus, os seus discípulos fecharam-se em casa, assustados e desorientados. Eles o tinham seguido pelas estradas da Palestina, enquanto anunciava a todos que Deus é Pai e ama com ternura a cada pessoa!
Jesus tinha sido mandado pelo Pai não só para testemunhar com a vida essa grande novidade, mas também a fim de abrir à humanidade o caminho para encontrar Deus; um Deus que é Trindade, comunidade de amor em si mesmo e quer acolher nesse abraço as suas criaturas.
Durante a sua missão, muitos viram, ouviram e experimentaram a bondade e os efeitos dos seus gestos e das suas palavras de acolhimento, perdão, esperança… De repente, Ele é condenado e crucificado.
É nesse contexto que o Evangelho de João nos conta como Jesus ressuscita no terceiro dia, aparece aos seus e os envia para prosseguir a sua missão:
“Como o Pai me enviou também eu vos envio.”
É como se Ele lhes dissesse: “Lembram-se de como partilhei com vocês a minha vida? Como eu saciei a sua fome e sede de justiça e de paz? Como eu curei os corações e os corpos de muitos marginalizados e rejeitados da sociedade? Como eu defendi a dignidade dos pobres, das viúvas, dos estrangeiros? Agora, continuem vocês: anunciem a todos o Evangelho que receberam, anunciem que Deus quer que todos o encontrem e que todos vocês são irmãos e irmãs”.
Toda e qualquer pessoa, tendo sido criada à imagem de Deus Amor, já tem no coração o desejo do encontro com Ele; todas as culturas e todas sociedades tendem a construir relações de convivência. Mas quanto esforço, quantas contradições, quantas dificuldades para atingir essa meta! Essa profunda aspiração se embate todo dia com as nossas fragilidades, com nossos fechamentos e medos, as desconfianças e os julgamentos que fazemos uns dos outros.
Mesmo assim, o Senhor, confiante, continua dirigindo-nos hoje o mesmo convite:
“Como o Pai me enviou também eu vos envio.”
Como podemos viver durante este mês um convite tão ousado? Será que a missão de promover a fraternidade numa humanidade frequentemente dilacerada não é uma batalha já perdida, ainda antes de começar?
Por nós mesmos jamais conseguiríamos isso. E foi por isso que Jesus nos deu um dom especialíssimo, o Espírito Santo, que nos sustenta no empenho de amar cada pessoa, mesmo que se trate de um inimigo.
O Espírito Santo – recebido no Batismo […] – sendo espírito de amor e de unidade, fazia de todos os fiéis uma só coisa com o Ressuscitado e entre si, superando todas as diferenças de raça, de cultura e de classe social […]. É por causa do nosso egoísmo que se constroem as barreiras com as quais nos isolamos e excluímos quem é diferente de nós. […] Procuraremos, portanto – escutando a voz do Espírito Santo –, crescer nessa comunhão […], superando os germes de divisão que trazemos dentro de nós.1
Com a ajuda do Espírito Santo, vamos lembrar e viver também nós, neste mês, as palavras do amor em cada pequena ou grande ocasião de relacionamento com os outros: acolher, escutar, sentir sua dor, dialogar, encorajar, incluir, dedicar atenção, perdoar, valorizar…: assim viveremos o convite de Jesus a continuar a sua missão e seremos canais daquela vida que Ele nos doou.
Como conta Chiara Lubich, foi isso que experimentou um grupo de monges budistas durante uma visita à Mariápolis permanente internacional de Loppiano, na Itália, onde os seus 800 habitantes procuram viver com fidelidade o Evangelho. Os budistas ficaram profundamente tocados pelo amor que nasce do Evangelho, que eles não conheciam. Um deles conta: “Eu colocava meus sapatos sujos fora da porta; de manhã eu os encontrava limpos. Colocava minha túnica suja fora da porta; no outro dia eu a encontrava lavada e passada. Eles sabiam que eu sentia frio, porque venho do Sudeste asiático; então aumentavam a temperatura do aquecedor e me davam cobertores… Um dia perguntei: ‘Por que vocês fazem isso?’ ‘Porque estimamos, queremos bem a vocês’, foi a resposta”. Esta experiência abriu o caminho para um verdadeiro diálogo entre budistas e cristãos.
Letizia Magri
1 Cf. Chiara Lubich, Palavra de vida  Unidade e partilha, revista Cidade Nova, janeiro de 1994.
Reproduzido pelo Blog do Ademir Rocha

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Palavra de Vida de Maio 2017

Palavra de Vida de Maio de 2017
Fonte: www.focolare.org

27 Abril 2017

“Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos.” (Mt 28,20)

No final do seu Evangelho, Mateus conta os últimos acontecimentos da vida terrena de Jesus. Ele ressuscitou e cumpriu a sua missão: anunciar o amor regenerador de Deus em favor de cada criatura e abrir de novo o caminho rumo à fraternidade na história dos homens. Para Mateus, Jesus é “o Deus conosco”, o Emanuel prometido pelos profetas, esperado pelo povo de Israel.
Antes de voltar ao Pai, Ele reúne os discípulos, aqueles com os quais tinha compartilhado mais de perto a sua missão, e lhes confia a tarefa de prolongar a sua obra no tempo.
Uma tarefa árdua! Mas Jesus lhes assegura que não os deixará sozinhos. Pelo contrário: promete que estará com eles todos os dias para sustentá-los, acompanhá-los, encorajá-los “até o fim dos tempos”.
Com a sua ajuda, eles serão testemunhas do encontro com Ele, da sua palavra e dos seus gestos de acolhida e misericórdia para com todos, de modo que muitos outros possam encontrá- lo e formar juntos o novo povo de Deus alicerçado no mandamento do amor.
Poderíamos dizer que a alegria de Deus consiste justamente neste estar comigo, com você, com todos nós a cada dia, até o fim da nossa história pessoal e da história da humanidade.
Mas será que é isso mesmo? É realmente possível encontrá-lo?
Ele “está do meu lado, está junto de mim, de você. Esconde-se no pobre, no desprezado, no pequeno, no doente, em quem necessita de um conselho ou em quem foi tolhido de sua liberdade. Está naquele que é menos bonito, no que foi marginalizado… Ele mesmo o disse: ‘Tive fome e me deste de comer…’1. (…) Procuremos descobri-lo lá onde Ele está”.2
Ele está presente na sua Palavra que, quando colocada em prática, renova a nossa existência. Está em todos os pontos da terra na Eucaristia e atua também por meio de seus ministros, servidores de seu povo. Está presente quando geramos concórdia ao nosso redor3; então a nossa oração ao Pai é mais eficaz e encontramos a luz para as decisões de cada dia.
“Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos”: quanta esperança nos dá essa promessa, que nos encoraja a procurá-lo no nosso caminho. Procuremos abrir o coração e as mãos ao acolhimento e à partilha, pessoalmente e como comunidade: nas famílias e nas igrejas, nos postos de trabalho e nos momentos de festa, nas associações civis e religiosas. Encontraremos Jesus e Ele nos deixará surpresos e encantados com a alegria e a luz, sinais da sua presença.
Se toda manhã nos levantarmos pensando: “Hoje quero descobrir onde é que Deus quer me encontrar!”, também nós poderemos fazer uma experiência reconfortante como esta:
“A mãe do meu marido é muito apegada ao seu filho, a ponto de ser ciumenta. Um ano atrás ela teve diagnosticado um tumor. Precisa de tratamento e assistência, que a sua única filha não consegue dar. Naquele período participei da Mariápolise o encontro com Deus Amor mudou a minha vida. A primeira consequência dessa conversão foi a decisão de acolher minha sogra em casa, indo além de todo receio. A luz que se acendeu no meu coração fez com que a enxergasse com olhos novos. Convenci-me de que nela era Jesus de quem eu tratava e a quem dava assistência.
Para minha surpresa, ela retribuía cada gesto meu com igual amor.
Decorreram meses de sacrifícios e, quando minha sogra partiu serenamente para o céu, deixou a paz em todos.
Naqueles dias me apercebi de que eu estava esperando um filho, coisa que eu almejava havia nove anos. Esse filho é, para nós, o sinal concreto do amor de Deus”.

Letizia Magri

1 Cf. Mt 25,35.
2 Cf. Chiara Lubich, Palavra de Vida, revista Cidade Nova, junho de 1982.
3 Cf. Mt 18,20.
4 Encontro característico do Movimento dos Focolares.

Fonte: www.focolare.org

Reproduzido pelo Blog do Ademir Rocha


Fazenda da Esperança visita os Focolares

Fonte: www.focolare.org

25 Abril 2017

Domingo, 23 de abril, um grupo da “Fazenda”, proveniente de 14 países, em visita ao Centro internacional dos Focolares. Uma história de amizade, ligados pela espiritualidade da unidade.
A amizade dos Focolares com a “Fazenda da Esperança” é de velha data. Desde o próprio nascimento da primeira “Fazenda”. Corria o ano de 1983, quando Nelson Giovanelli, jovem brasileiro da cidade de Guaratinguetá (no estado de São Paulo), se aproxima de um grupo de jovens toxicodependentes impelido pelas palavras do apóstolo Paulo: “Fiz-me fraco com os fracos…”. Um dos jovens se sente envolvido e pede ajuda para sair da dependência da droga. Seguem-se muitos outros. Nelson conhece e vive a espiritualidade da unidade de Chiara Lubich. A ele se une Hans Stapel, franciscano alemão, que apoia a iniciativa desde o início. Depois, a obra que estava nascendo se desenvolverá apoiada nestes “dois carismas”, como chegou a dizer o papa emérito Bento XVI em visita à comunidade de Pedrinhas durante a sua viagem apostólica ao Brasil, em 2007: o carisma da unidade de Chiara Lubich e o da pobreza de S. Francisco de Assis.
Domingo, 23 de abril de 2017: um grupo de 60 pessoas, jovens e adultos, está visitando o Centro internacional do Movimento dos Focolares, em Rocca di Papa (Itália). Na maioria provêm do Brasil, mas existem também representantes de outros países latino-americanos como Uruguai, Argentina, Paraguai e México; Alemanha e Suíça; Angola e Moçambique; e das Filipinas. Com eles estão os 4 fundadores: Frei Hans Stapel, Nelson Giovanelli Rosendo dos Santos, Lucilene Rosendo, Iraci Leite, junto com o seu conselho geral para a Europa.
«O objetivo desta viagem – explica Frei Hans – é o de fazer conhecer, na Europa, a experiência da Fazenda. Oferecer esta alternativa de ajuda aos jovens que hoje sofrem a escravidão das dependências. Além da Itália, iremos à Suíça, Alemanha, França, Polônia e Portugal, isto é, nos países onde estão as Fazendas, e estas 60 pessoas darão o seu testemunho de vida. Vindo até nós, encontraram uma vida nova, por isso decidiram empreender uma experiência missionária e evangelizadora durante três meses na Europa. Fizeram um grande esforço para pagar a passagem aérea, como sinal concreto de um testemunho gratuito».
Por qual motivo vocês vêm ao Centro do Movimento dos Focolares? «Porque é nosso grande desejo – responde Nelson Giovanelli – que tenham a ocasião de conhecer as origens do carisma que deu raízes às Fazendas». E lembra quando, em 1990, escreveu uma carta a Chiara Lubich compartilhando com ela este seu chamado a amar “Jesus abandonado nas pessoas que se encontravam vítimas das drogas”. Chiara o encorajou a seguir o impulso do Espírito.
Hoje são mais de 124 Comunidades de Vida espalhadas em diversas partes do mundo. Acolhem mais de 3.000 jovens empenhados em se libertar da dependência das drogas, através de uma redescoberta pessoal da dignidade e dos valores da vida. Na Europa existem 14 Fazendas e nestes meses inaugurarão outras 4 (França, Polônia, Itália).
Nas “Fazendas da Esperança”, pessoas se dedicam voluntariamente, com empenho e gratuidade, a serviço dos jovens e constituem a comunidade da “Família da Esperança”. «Meu pai era alcoólatra, eu não acreditava no amor … – conta Priscila, jovem argentina –. Quando encontrei e me empenhei como voluntária na Fazenda, recuperei o relacionamento com ele, após 15 anos de afastamento. Eu o perdoei e aos poucos ele deixou o álcool. O perdão para mim é tudo, a síntese da minha vida: Deus, o encontro no amor que doo».
Jesús Morán, copresidente dos Focolares, trouxe a saudação de Maria Voce e lhes agradeceu pelo testemunho evangélico deles, desejando a todos que «estejam sempre próximos do homem sofredor, de Jesus abandonado, para que “todos sejam um”, começando pelos últimos».
A permanência deles na Itália prevê a visita à cidade de S. Francisco e à cidadezinha internacional de Loppiano, onde participarão do Meeting “Pulse” e da costumeira festa dos jovens de 1º de maio.

Reproduzido pelo Blog do Ademir Rocha

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Palavra de Vida de Abril 2017


Palavra de Vida de Abril 2017
Fonte da foto: Fernando Sette

Palavra de Vida – Abril de 2017
 
Fonte: www.focolare.org
28 Março 2017
“Fica conosco, pois já é tarde.” (Lc 24,29)

Foi esse o convite dirigido ao desconhecido que os dois companheiros de viagem encontraram no caminho que ia de Jerusalém à localidade de Emaús. Eles “falavam e discutiam” entre eles sobre o que tinha acontecido dias antes na cidade.
O homem dava a impressão de ser a única pessoa que não sabia de nada. Por isso os dois, aceitando a sua companhia, lhe falaram desse “profeta poderoso em palavras e em obras diante de Deus e dos homens”, em quem eles tinham confiado totalmente. Ele tinha sido entregue aos romanos pelos chefes dos seus sacerdotes e pelas autoridades judaicas, sendo depois condenado à morte e crucificado1. Uma tragédia terrível, cujo sentido eles não eram capazes de entender.
Ao longo do  caminho o  desconhecido ajudou  os dois a compreender o significado daqueles acontecimentos, baseando-se  na  Escritura.  E assim reacendeu no  coração deles  a esperança. Chegando a Emaús, pediram que ele ficasse para jantar: “Fica conosco, pois já é tarde”. Enquanto ceavam juntos, o desconhecido abençoou o pão e o repartiu com eles. Esse gesto fez com que eles o reconhecessem: o Crucificado, que estava morto, agora estava ali, ressuscitado! Imediatamente os dois mudaram de programa: voltaram a Jerusalém e procuraram os outros discípulos para dar-lhes a grande notícia.
Também nós podemos estar desiludidos, indignados, desencorajados diante de uma trágica sensação de impotência diante das injustiças que atingem pessoas inocentes e indefesas. Também na nossa vida não faltam a dor, a incerteza, a escuridão… E como gostaríamos de transformá-las em paz, esperança, luz, para nós e para os outros.
Queremos encontrar Alguém que nos compreenda profundamente e ilumine o caminho da vida?
Jesus, o Homem-Deus, aceitou livremente experimentar, como nós, a escuridão da dor, para ter a certeza de atingir no mais profundo a situação de cada um de nós. Aceitou a dor física, mas também a dor interior: desde a traição por parte dos seus amigos até a sensação de ser abandonado2 por aquele Deus que Ele sempre tinha chamado de Pai. Por causa da sua confiança inabalável no amor de Deus, superou aquela imensa dor, confiando-se novamente a Ele3. E Dele recebeu nova vida.
Ele conduziu também a nós, homens, por esse mesmo caminho e quer acompanhar-nos: “(…) Ele está presente em tudo aquilo que tem sabor de dor (…). Procuremos reconhecer Jesus em todas as angústias, as aflições da vida, em todas as escuridões, as tragédias pessoais e dos outros, os sofrimentos da humanidade que nos rodeia. São Ele, porque Ele os tornou seus (…). Bastará fazer algo de concreto para aliviar os ‘seus’ sofrimentos nos pobres (…), para encontrar uma nova plenitude de vida”.4
Uma menina de sete anos conta: “Sofri muito quando meu pai foi preso. Amei Jesus nele. Assim consegui não chorar diante dele quando fomos visitá-lo”.
E uma jovem esposa: “Acompanhei meu marido Roberto nos últimos meses de sua vida, depois de um diagnóstico sem esperança. Não me afastei dele nem por um instante. Eu via Roberto e via Jesus… Roberto estava na cruz, realmente na cruz.” O amor mútuo entre eles tornou-se luz para os seus amigos e eles se envolveram numa competição de solidariedade que nunca mais se interrompeu; pelo contrário, se estendeu a muitos outros, dando origem a uma associação de promoção social chamada “Abraço Planetário”. “A experiência vivida com Roberto”, diz um amigo dele, “nos arrastou com ele numa verdadeira caminhada rumo a Deus.
Muitas vezes nos perguntamos qual o significado do sofrimento, da doença, da morte. Creio que todos os que tiveram a sorte de fazer esse percurso ao lado de Roberto tenham agora a compreensão bem clara de qual seja a resposta”.
Neste mês todos os cristãos celebram o mistério da morte e ressurreição de Jesus. É uma ocasião para reacender a nossa fé no amor de Deus que nos permite transformar a dor em amor; cada desapego, separação, fracasso e a própria morte podem tornar-se para nós fonte de luz e de paz. Na certeza de que Deus está perto de cada um de nós em qualquer situação, queremos repetir confiantes o pedido dos discípulos de Emaús: “Fica conosco, pois já é tarde”.
Letizia Magri
1 Cf. Lc 24,19ss.
2 Cf. Mt 27,46; Mc 15,34.
3 Cf. Lc 23,46.
4 Cf. Chiara Lubich, Palavra de Vida, revista Cidade Nova, abril de 1999.

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Fonte da foto: Yahoo

Notícia

“A unidade em caminho”

3 Abril 2017
Jornada ecumênica em Nieuwkuijk. Participaram líderes das Igrejas e o conferencista Hubertus Blaumeiser, católico, estudioso da vida de Lutero. Grande entusiasmo da comunhão em Cristo.
Depois do histórico encontro da Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica, no dia 3 de outubro passado em Lund, na Escócia, a comemoração dos 500 anos da Reforma suscita multíplices iniciativas no mundo inteiro.
O encontro com o tema A unidade em caminho” foi realizado no dia 18 de março e foi promovido pela Associação Católica para o Ecumenismo Athanasios en Willibrord e pelo Movimento dos Focolares.
A data escolhida foi a durante a semana do aniversário de morte de Chiara Lubich da qual é muito conhecido o grande empenho pela unidade dos cristãos. Para a ocasião reuniram-se na Mariápolis permanente do Focolare em Marienkroon, Nieuwkuijk (100 km de Amsterdam), 380 pessoas, entre as quais líderes das principais denominações cristãs. Um povo em caminho, como evidenciava também o lugar do evento: um toldo branco cobria uma grande sala, completamente ocupada até os últimos lugares e outra sala da qual se podia seguir a transmissão do evento. Durante cinco horas, com a pausa para o almoço, houve uma sequência de reflexões, testemunhos, cantos e manifestações artísticas. O ápice do encontro foi o momento comum de oração, seguindo o mesmo estilo daquele acontecido em Lund.
A grande participação, mas, especialmente, a atmosfera fraterna que havia entre os participantes, inclusive líderes das Igrejas, fez deste dia uma etapa histórica, como afirmou o diretor da associação Católica para o Ecumenismo, Geert van Dartel. Ao mesmo tempo foi uma “festa ecumênica”, como afirmou um dos participantes.
A unidade na diversidade não é algo que nós podemos ‘fabricar’; mas, é um dom de Deus, com essas palavras iniciou o conferencista principal do encontro, Hubertus Blaumeiser, católico, estudioso da vida de Lutero e membro do centro de estudos interdisciplinares do Focolares, a “Escola Abba”.
Levando em consideração a agenda ecumênica após o evento de Lund, ele acrescentou, citando Chiara Lubich: A partitura está escrita no Céu”. Toca a nós saber ler esta partitura. E, sendo assim – prosseguiu – desde que, na cruz, Jesus deu a vida por todos, já nos foi doada a unidade. A nossa parte é corresponder a essa unidade. Assim se explica o primeiro dos cinco “imperativos ecumênicos” selados em Lund, que recomenda iniciar sempre pela perspectiva da unidade e não da separação.
Mas como fazer para que esta unidade se concretize, em meio a situações às vezes difíceis, depois de séculos de divisão? Seguindo Deus trinitário e seguindo Jesus todos nós somos chamados a um êxodo – disse Blaumeiser – somos chamados a sair de nós mesmos e a aprender a pensar e viver partindo do outro, isto é “não só como indivíduo, mas, também, como Comunidade de fé.” Praticamente o ecumenismo é um trajeto a ser percorrido com Jesus: da morte à ressureição. “A unidade nasce ali, quando temos a coragem de não fugir diante das dificuldades, mas, de entrar com Jesus na ferida da separação, acolhendo-nos uns aos outros também quando isto causa fadiga ou é doloroso.
A este propósito afirmam os “imperativos ecumênicos”, deixar-nos transformar pelo encontro com o outro e, desta forma, buscar a visível unidade e testemunhar juntos a força do Evangelho. A responder essas perspectivas foi o bispo Van den Hende, presidente da Conferência dos Bispos Católicos da Holanda; o Dr. De Reuver, secretário geral das Igrejas Protestantes dos Países Baixos e Peter Sleebos, ex-coordenador nacional das Comunidades Pentecostais. Comentando as orientações expostas nos próprios discursos eles expressaram ulteriores estímulos e elementos de reflexão, cada um a partir da própria tradição.
No início da tarde, testemunhos ecumênicos demonstraram praticamente o que Chiara Lubich denominou “diálogo da vida”. Depois houve um fórum com os conferencistas.
Um dos participantes disse: “Neste sábado, nós fomos capazes de ‘tocar’, juntos, notas maravilhosas da partitura que está no Céu.” O pastor René De Reuver, em uma entrevista a um jornal católico, disse: “Este encontro foi muito especial. Eu experimentei a presença de Cristo no entusiasmo, na comunhão e na paixão pela união com Ele. Não anula as diversidades, mas nos faz enriquecer-nos reciprocamente”.

Reproduzido pelo Blog do Ademir Rocha

quarta-feira, 1 de março de 2017

Vias da Espiritualidade da Unidade

Vias da Espiritualidade da Unidade
Fonte da foto: Antonio Sérgio R. dos Santos
Fonte dos textos: www.focolare.org
Deus Amor
Com a violência da guerra, Chiara Lubich e suas primeiras companheiras adquiriram o hábito de encontrar-se nos abrigos antiaéreos, logo que tocava a sirene anunciando um novo bombardeio. Depois daquela fulgurante intuição que as havia levado a colocar Deus Amor no centro de seus interesses, no centro – único e absoluto – de suas jovens vidas, tinham o forte o desejo de estar juntas e descobrir modos novos de ser cristãos, e colocar em prática o Evangelho.
«Cada acontecimento nos tocava profundamente – Chiara dirá mais tarde –. A lição que Deus nos dava, por meio das circunstâncias, era clara: tudo é vaidade das vaidades, tudo passa. Mas, ao mesmo tempo, Deus colocava no meu coração, para todas, uma pergunta, e com ela a resposta: “Mas existirá um ideal que não morre, que nenhuma bomba pode destruir, ao qual doar-nos inteiramente?”. Sim, Deus. Decidimos fazer Dele o ideal da nossa vida»
Em 2000 Chiara escreveu: «Deus. Deus, que em meio ao furor da guerra, fruto do ódio, e sob a ação de uma graça especial, manifestou-se por aquilo que verdadeiramente é: amor. A primeira ideia-força sobre a qual o Espírito construiu esta espiritualidade foi esta: Deus Amor (cf. 1Jo 4,8).
Que transformação esta verdade, compreendida de forma completamente nova em contato com o carisma do Movimento, provoca nas pessoas! Fazendo uma comparação, a vida cristã conduzida antes, ainda que com uma prática coerente, parece obscurecida pela orfandade. Depois, eis a descoberta: Deus é amor, Deus é Pai! O nosso coração, que vivera no exílio da noite da vida, abre-se e eleva-se, une-se com aquele que o ama, que pensa em tudo, que conta até mesmo os cabelos de nossa cabeça.
As circunstâncias alegres e dolorosas adquirem um novo significado: tudo é previsto e desejado pelo amor de Deus. Nada mais pode nos causar medo. Esta é uma fé exaltante, que fortifica, que faz exultar. É uma fé que provoca as lágrimas em quem a experimenta pela primeira vez. É uma dádiva de Deus que nos faz gritar: “Nós acreditamos no amor!” (1Jo 4,16). Com a escolha de Deus que é amor, como ideal da vida, se colocava o primeiro fundamento, a primeira exigência daquela nova espiritualidade que tinha desabrochado em nossos corações. Tínhamos encontrado Aquele por quem viver: Deus Amor». 
Amor ao irmão
A aventura das jovens de Trento, reunidas ao redor de Chiara, não podia deixar indiferente a população da cidade, então de poucas dezenas de milhares de pessoas, e nem mesmo a Igreja local. O comportamento das moças da “casinha” da Praça dos Capuchinhos, sede do primeiro focolare, surpreendia grandes e pequenos. Naquele modesto apartamento os pobres eram de casa, até os problemas sociais da cidade, arrasada pela guerra, era algo que elas sentiam como próprio. E acreditavam na possibilidade de resolvê-lo, simplesmente acreditando na verdade das palavras do Evangelho. Amando os irmãos, um a um.
Chiara escreveu: «Dentre todas as Palavras o nosso carisma sublinhou imediatamente aquelas que diziam respeito especificamente ao amor evangélico ao próximo, e não só aos pobres. No Evangelho lemos que Jesus disse: “Cada vez que fizestes estas coisas a um desses meus irmãos mais pequeninos (e entende-se todos) foi a mim que o fizeste” (Mt 25,40). Então o nosso modo antigo de conceber o próximo e de amá-lo desabou. Se Cristo, de certa forma, estava em todos, não podiam ser feitas discriminações, nem haver preferências. Despareceram os conceitos humanos que classificam as pessoas: da minha pátria ou estrangeiro, velho ou jovem, bonito ou feio, antipático ou simpático, rico ou pobre. Cristo estava atrás de cada um, Cristo estava em cada um. E cada irmão era verdadeiramente “outro Cristo” – se a graça enriquecia a sua alma – ou um Cristo que poderia nascer, se ainda distante Dele.
Vivendo assim percebemos que o próximo era o caminho para chegar a Deus. Aliás, o irmão nos pareceu como um arco sob o qual era necessário passar para encontrar Deus. E isso nós experimentamos desde os primeiros dias. Que união com Deus à noite, na oração ou no recolhimento, depois de tê-lo amado o dia inteiro nos irmãos! Quem nos dava aquela consolação, aquela unção interior não diferente de antes, tão celeste, senão Cristo que vivia o “dai e vos será dado” do seu Evangelho? Nós o tínhamos amado o dia inteiro nos irmãos e agora ele nos amava. E quanto nos foi útil esta dádiva interior! Eram as primeiras experiências da vida espiritual, da realidade de um reino que não é desta terra. Assim, no maravilhoso caminho que Deus nos mostrava, o amor ao irmão foi um novo ponto fundamental da nossa espiritualidade».

Unidade

Em Fiera di Primiero, nos primeiros tempos do Movimento dos Focolares
Uma espiritualidade de comunhão, coletiva, como dizia Paulo VI, é o novo caminho de Chiara Lubich, nascido do Evangelho. Mas quais as suas características? Quais os fatos que, desde o início, levaram à certeza de terem nascido para contribuir à unidade dos homens com Deus e entre eles? Vamos descobri-lo juntos.
Em maio de 1944, no porão escuro da casa de Natalia Dallapiccola, para onde ela havia transferido o seu quarto, para proteger-se, de algum modo, dos eventuais bombardeios, à luz de vela Chiara a suas amigas de Trento liam o Evangelho, como já era um hábito para elas. O abriram ao acaso e encontraram a oração que Jesus pronunciou antes de morrer: «Pai, que todos sejam uma coisa só» (Jo 17,21). Este é um texto evangélico extraordinário e complexo, o “testamento de Jesus”, estudado por exegetas e teólogos de toda a cristandade, mas naquela época um pouco esquecido, porque misterioso para a maioria. Aquela passagem de São João poderia parecer não fácil para jovens como Chiara, Natalia, Doriana e Graziella. Mas elas intuíram que aquela seria a “sua” passagem evangélica, a unidade. Num daqueles dias, em Trento, passando sobre a ponte Fersina, Chiara disse às suas amigas: «Entendi que devemos amar-nos como diz o Evangelho: até tornarmo-nos uma coisa só». Mais tarde, no Natal de 1946, elas escolheram como lema uma frase radical: «Ou a unidade ou a morte».

Chiara escreveu, em 2000: «Um dia estava com minhas amigas, e abrindo o pequeno livro, li: “Pai, que todos sejam uma coisa só” (Jo 17,21). Era a oração de Jesus antes de morrer. Pela sua presença entre nós e por um dom do seu Espírito, pareceu-me entender um pouco aquelas palavras difíceis e fortes, e nasceu em meu coração a convicção de que tínhamos nascido para aquela página do Evangelho: para a unidade, isto é, para contribuir à unidade dos homens com Deus e entre eles.
Algum tempo depois, conscientes da divina audácia de um programa que somente Deus podia atuar, ajoelhadas ao redor de um altar, pedimos a Jesus que realizasse aquele seu sonho usando de nós, se isto estivesse nos seus planos. No início, diante da grandeza da missão, tínhamos às vezes a impressão de desfalecer, e vendo as multidões que teríamos que reunir na unidade, o desânimo nos assolava. Mas aos poucos, docemente, o Senhor nos fez entender que a nossa missão era como aquela de um menino que lança uma pedra na água, e ao redor daquela pedra se fazem muitos círculos, cada vez maiores, que parecem quase infinitos. Entendemos que nós deveríamos criar a unidade ao nosso redor, no ambiente onde estamos, e que depois – quando já estivéssemos no céu – iríamos ver círculos gigantescos, até que no fim dos tempos se realizariam os planos de Deus. Para nós foi claro, desde o primeiro momento, que esta unidade possuía um único nome: Jesus. Para nós ser uma coisa só significava ser Jesus, ser todos Jesus. De fato somente Cristo pode fazer de dois um, porque o seu amor, que é anulação de si, que é ausência de egoísmo, nos faz entrar profundamente no coração dos outros. O que eu escrevia, naqueles tempos, demonstra a maravilha diante de uma realidade sobrenatural tão sublime: “A unidade! Mas quem ousará falar dela? É inefável como Deus! Poder ser sentida, pode ser vista, regozija-se com ela, mas… é inefável! Todos regozijam-se com a sua presença, todos sofrem com a sua ausência. É paz, gáudio, amor, ardor, clima de heroísmo, de suma generosidade. É Jesus entre nós!”».

A Igreja
Ainda nos anos quarenta, início do Movimento, um dia o bispo mandou chamar o grupo das jovens de Trento. Não conhecendo o motivo Chiara ficou preocupada. Após longas orações as jovens se apresentaram no imponente edifício do arcebispado, na Praça Fiera. Expuseram o que estavam fazendo na cidade, os fatos que mostravam a verdadeira revolução que crescia de suas mãos, quase sem que percebessem. Todavia, expressaram explicitamente, estavam dispostas a destruir tudo o que havia sido construído naqueles meses, se ele o desejasse. «No bispo – elas pensavam – é Deus que fala». E a elas só Deus importava, nada mais. Naquela ocasião, Dom Carlo de Ferrari, religioso da Ordem dos Estigmatinos, escutou Chiara e suas primeiras companheiras, sorriu para elas e pronunciou, simplesmente, uma frase que ficou na história: «Aqui há o dedo de Deus».
A sua aprovação e benção acompanharam o Movimento até a sua morte. Aconteceu, por exemplo, que quando o número de moças e rapazes que desejavam fazer parte do focolare, deixando casa e bens, se multiplicou, o bispo determinou que isto só podia ser feito com o acordo dos pais. E assim se dispersaram muitos comentários. Sobre a existência e a importância da Igreja, Chiara a suas companheiras tinham somente certezas. Com o passar do tempo a espiritualidade da unidade levou a conceber a Igreja essencialmente como comunhão.
Chiara escreveu, em 2000: «Uma palavra do Evangelho nos tocou de modo especial. É sempre Jesus que fala: “Quem vos ouve (os apóstolos) a mim ouve” (Lc 10,16). (…). O carisma nos introduzia, de modo novo, no próprio mistério da Igreja, já que nós mesmos vivíamos como pequena Igreja. Antecipando de muitos anos a definição conciliar de Igreja-comunhão, a espiritualidade da unidade fazia experimentar e perceber com maior consciência o que significa ser Igreja e vivê-la. E, pela presença de Cristo entre nós, entendíamos que era lógico que fosse assim.
De tanto estar em contato com o fogo nos tornamos fogo; de tanto ter Jesus em meio a nós nos tornamos outros Cristo. São Boaventura disse: “Onde dois ou três estão unidos em nome de Cristo lá está a Igreja”, e Tertuliano: “Onde três [estão reunidos], ainda que leigos, ali está a Igreja”. A presença de Cristo em meio a nós nos faz Igreja, e daí nascia em todos uma verdadeira paixão por ela. Do amor, por sua vez, brotava uma nova compreensão, tudo era vital: compreendíamos os sacramentos de modo novo, os dogmas se iluminavam. O fato de ser Igreja, pela força da comunhão de amor que nos une, e da inserção na sua realidade institucional, fazia com que nos sentíssemos à vontade, e experimentássemos a sua maternidade, até nos momentos mais difíceis ».

Vontade de Deus
Qual devia ser o comportamento para demonstrar a Deus que era Ele o centro de todos os nossos interesses? Chiara e suas primeiras companheiras se perguntavam como colocar em prática o novo ideal de vida, Deus Amor. E logo isto pareceu quase óbvio: deviam, por sua vez, amar a Deus. Não teriam nenhum sentido na vida se não fossem «uma pequena chama daquele infinito braseiro: amor que responde ao Amor».
E a dádiva de poder amar a Deus pareceu-lhes grande e sublime, a ponto que com frequência repetiam: «Não é tanto que se deve dizer: “devemos amar a Deus”, mas, “Oh! Poder amar-te, Senhor! Poder amar-te com este pequeno coração”». Recordaram-se de uma frase do Evangelho que não deixava, e não deixa, escapatória para quem quer conduzir uma vida cristã coerente: «Não quem diz “Senhor, Senhor…” entrará no reino dos céus, mas quem faz a vontade do meu Pai que está nos céus» (Mt 7,21). Fazer a vontade de Deus era, portanto, a grande possibilidade que todas tinham de amá-lo. Deus e a sua vontade coincidiam.
Chiara escreveu: «Deus é como o sol. A cada um de nós chega um raio: a divina vontade sobre mim, sobre minha amiga, sobre a outra. Único sol, vários os raios, ainda que sempre raios de sol. Único Deus, única vontade, vária para cada um, ainda que sempre vontade de Deus. Era preciso caminhar no próprio raio, sem jamais sair dele. E caminhar no tempo que nos era dado. Não era o caso de divagar no passado ou fantasiar sobre o futuro. Precisava abandonar o passado na misericórdia de Deus, já que não nos pertencia mais, e o futuro seria vivido com plenitude, quando se tornasse presente.
Somente o presente estava em nossas mãos. E para que Deus reinasse na nossa vida, deveríamos, no presente, concentrar mente, coração e forças no cumprimento da sua vontade. Como um viajante no trem, não pensa em caminhar pelo vagão para chegar antes ao destino, mas, sentado, deixa que o trem o leve, assim a nossa alma, para chegar a Deus deveria cumprir plenamente a sua vontade, no momento presente, porque o tempo caminha por si só. E não seria difícil demais entender o que Deus queria de nós. Ele manifestava a sua vontade através dos superiores, da Sagrada Escritura, dos deveres do próprio estado, das circunstâncias, das inspirações… momento por momento, iluminadas e ajudadas pela graça atual, teríamos construído o edifício da nossa santidade. Ou melhor, fazendo a vontade de um Outro – de Deus mesmo – ele teria edificado a si mesmo em nós.
Fazer a vontade de Deus, portanto, não significa apenas “resignação”, como muitas vezes se entende, mas a maior aventura divina que possa acontecer a uma pessoa, a de seguir não a própria vontade mesquinha, os próprios projetos limitados, mas Deus, e realizar o desígnio que ele tem sobre cada filho seu, desígnio divino, impensável, riquíssimo. Para nós fazer a vontade de Deus foi a descoberta de um caminho de santidade feito para todos. Como qualquer pessoa, seja qual for o lugar, situação ou vocação que se encontre, pode fazer a vontade de Deus, esta pode ser o bilhete de ingresso das multidões à santidade. Fazer a vontade de Deus, para amá-lo, tornou-se o segundo ponto da nossa espiritualidade da unidade».
Amor recíproco
O Evangelho, que Chiara e suas primeiras companheiras liam nos refúgios antiaéreos, era uma descoberta contínua, no fundo era um livro que antes elas não conheciam, ninguém jamais havia falado naqueles termos. «Jesus age sempre como Deus. Pelo pouco que damos nos preenche de dons. Estamos sós, e nos vemos cercados por milhares de mães, pais, irmãos, irmãs, e carregados de todos os bens que se podem imaginar, para depois distribuí-los a quem não tem nada».
A experiência fazia consolidar a convicção de que não existe nenhuma problemática humana que não encontre uma resposta, explícita ou implícita, naquele pequeno livro que traz palavras do céu.
As pessoas que aderiam ao movimento que estava nascendo adentravam e se nutriam delas, era uma reevangelização, experimentava-se que o que Jesus dizia e prometia se realizava, pontualmente.
Chiara escreveu: «A guerra continuava, os bombardeios prosseguiam. Os refúgios não eram seguros suficientemente e podíamos nos encontrar logo diante de Deus. Tudo isso fazia com que no nosso coração surgisse um desejo, o de colocar em prática, naqueles momentos que poderiam ser os últimos da nossa vida, aquele que fosse o maior desejo de Jesus. Então nos lembramos do mandamento que Ele chama seu e novo: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15, 12-13)».
A descoberta do “mandamento novo” as inflamou a tal ponto que o amor recíproco tornou-se como a sua “veste”, o próprio modo de ser. Era aquele amor que atraía pessoas de toda idade e classe social. Amar-se reciprocamente não era uma opção, mas um modo de viver e de se apresentar ao mundo.
«Dizíamos que Jesus era como um imigrante que traz da própria terra os seus usos e costumes. Ao nos dar o “seu” mandamento, trouxe para a terra a lei do céu, que é o amor entre os Três, na Santíssima Trindade. Olhamos umas às outras e decidimos: “Eu quero estar pronta a morrer por você, e eu por você”. Todas, umas pelas outras.
Mas se devíamos estar prontas a dar a vida era lógico que, enquanto isso, precisava responder às muitas exigências que o amor fraterno solicitava, era preciso partilhar as alegrias, os sofrimentos, os poucos bens, as próprias experiências espirituais. Esforçamo-nos em viver assim, para que o amor recíproco reinasse entre nós, antes de qualquer outra coisa.
«Um dia, no primeiro focolare, tiramos do armário as coisas que tínhamos, poucas e pobres, e as amontoamos no meio do quarto, para depois dar a cada uma o que lhe servia, e o restante aos pobres. Dispostas a colocar em comum o salário e todos os pequenos e grandes bens que tínhamos ou poderíamos vir a ter. Inclusive os bens espirituais. Até mesmo o desejo da santidade tinha sido posposto na única escolha, Deus, que excluía qualquer outro objetivo, mas incluía, obviamente, a santidade que ele havia previsto para nós.
E quando, pelas imperfeições que todas possuíamos, surgiram as óbvias dificuldades, decidimos não nos ver com o olhar humano – que descobre a palha no olho do outro, esquecido da própria trave – mas com o olhar que tudo perdoa e esquece. E sentimos que o perdão recíproco era um dever, para imitar Deus misericordioso, tanto que entre nós propusemos uma espécie de voto de misericórdia, isto é, cada manhã, ao levantar, víamo-nos como pessoas “novas”, que nunca haviam caído naqueles defeitos».

Jesus Abandonado
No ano 2000, num discurso, Chiara Lubich recorda a primeira “descoberta” de Jesus Abandonado: «Um fato, acontecido nos primeiros meses de 1944, nos levou a ter uma nova compreensão sobre Ele. Por uma circunstância viemos a saber que o maior sofrimento de Jesus, e portanto o seu maior ato de amor, foi quando, na cruz, experimentou o abandono do Pai: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46). Ficamos profundamente tocadas com isso. E a jovem idade, o entusiasmo, mas principalmente a graça de Deus, nos impulsionaram a escolher justamente Ele, no seu abandono, como caminho para realizar o nosso ideal de amor. Desde aquele momento pareceu-nos encontrar o seu semblante em toda parte».
Outro momento determinante para a compreensão deste “mistério de dor-amor”. Estamos no verão de 1949. Igino Giordani foi encontrar Chiara, que tinha ido para o Vale di Primiero, na região montanhosa do Trentino (Itália), para um período de repouso. Com o primeiro grupo vivia-se intensamente a passagem do Evangelho sobre o abandono de Jesus. Foram dias de luz intensa, tanto que no final do verão, devendo descer daquele “pequeno Tabor” para voltar à cidade, Chiara escreveu, num só ímpeto, um texto que inicia com verso que tornou-se célebre: «Tenho um só esposo sobre a terra, Jesus abandonado… Irei pelo mundo buscando-o, em cada instante da minha vida».
Muitos anos depois ela explicou: «Desde o início entendemos que em tudo existe uma outra face, que a árvore tem as suas raízes. O Evangelho lhe cobre de amor, mas exige tudo. “Se o grão de trigo caído na terra não morre – lê-se em João – permanece só; se morre produz muito fruto” (Jo 12,24). A personificação disso é Jesus abandonado, cujo fruto foi a redenção da humanidade. Jesus crucificado! Ele havia experimentado em si a separação dos homens de Deus e entre si, e tinha sentido o Pai distante. Nós o vimos não apenas nas nossas dores pessoais, que não faltaram, e nos sofrimentos dos próximos, muitas vezes sós, abandonados, esquecidos, mas em todas as divisões, os traumas, as separações, as indiferenças recíprocas, grandes ou pequenas: nas famílias, entre as gerações, entre pobres e ricos, às vezes na própria Igreja, e mais tarde entre as várias Igrejas, e depois ainda entre as religiões e entre quem crê e quem possui uma convicção diferente.
Mas todas estas dilacerações – continua Chiara – não nos assustaram, pelo contrário, pelo amor a Ele abandonado, elas nos atraíram.  E foi Ele que nos ensinou como enfrentá-las, como vivê-las e ajudar a superá-las, quando, depois do abandono, recolocou o seu espírito nas mãos do Pai: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46), dando assim a possibilidade para que a humanidade se recompusesse, em si mesma e com Deus, e indicando-lhe o modo de fazê-lo. Ele manifestou-se como chave da unidade, remédio para qualquer divisão. Era Ele que recompunha a unidade entre nós, cada vez que era rompida. Era Ele que reconhecíamos e amávamos nas grandes, trágicas divisões da humanidade e da Igreja. Ele se tornou o nosso único Esposo. E a nossa convivência com um tal Esposo foi tão rica e fecunda, que me levou a escrever um livro, como uma carta de amor, como um canto, um hino de alegria e gratidão a Ele».

Espírito Santo


É incontestável que o Espírito Santo é um “Deus desconhecido”. Muito se fala dele, mas poucos sabem quem é, como age, de quais belezas e fantasias divinas saiba revestir-se.
Embora não se manifestasse diretamente, Chiara Lubich e suas primeiras companheiras perceberam que Ele agia, desde os primeiros balbucios do movimento. Por assim dizer, um Deus que se manteve cuidadosamente escondido, ensinando a elas o que é o amor, Ele que é o amor personificado. Ele, o comunicador, o Amor entre Pai e Filho, a “suave aragem”.
Chiara escreveu: «Assistimos à sua ação dia após dia, em toda a nossa vida, às vezes doce, às vezes forte, às vezes até violenta, e quase não nos apercebemos dele. Mas da primeira escolha de Deus Amor, à luz que iluminava as palavras do Evangelho, à revelação de Jesus abandonado, a alegria, a paz e a luz que sentíamos borbulhar em nossos corações ao viver o mandamento novo, nada mais era do que a ação Dele. Podemos dizer que é possível reescrever toda a história do movimento, atribuindo-a totalmente à ação do Espírito Santo. Somente agora vemos como Ele foi, de fato, o grande protagonista da nossa aventura, foi ele que moveu tudo.
Mas agora que Ele se revelou, mostrando-se aquele que é realmente para nós, podemos reconhecer as suas pegadas luminosas, os incontáveis sinais da sua ação constante e imprevisível. Aquela voz interior que nos guiava no novo caminho, aquela atmosfera especial que pairava nos nossos encontros, a potente liberação de energias latentes, que purifica e renova, aquela alquimia divina que transforma a dor em amor, aquelas experiências de vida, têm um único nome, que aprendemos a conhecer, para sermos infinitamente gratos e sentirmo-nos impulsionados a pedir a sua intervenção nos nossos afazeres cotidianos, dos mais simples aos mais exigentes. Ele deu-nos a coragem de enfrentar as multidões, de deixar a pátria, enfrentar os incômodos, as contrariedades, amiúde com alegria. Mas o efeito mais profundo, mais radical e característico da sua presença é o de ser liame de unidade entre nós.
O Espírito Santo é o presente que Jesus deu a nós, para que fôssemos um, como o Ele e o Pai. Sem dúvida, porque somos cristãos, o Espírito Santo estava em nós antes também, mas houve uma iluminação nova, uma nova manifestação Dele dentro de nós, que nos fez partícipes e atores de uma nova Pentecostes, juntamente com todos os movimentos eclesiais que tornam novo o semblante da Igreja».

A Palavra
O Evangelho. A aventura da unidade, iniciada por Chiara Lubich tinha um só “texto”: a Bíblia, o Evangelho, a Palavra de Deus. Para elas a vida que levava a Deus existia somente nas páginas do Evangelho. Foi naquele período que, não por acaso, tomou corpo uma prática já intuída por Chiara quando era professora, e que se generalizou em todo o mundo do focolare, e não só: a “Palavra de Vida”. Viviam uma frase do Evangelho e a grande novidade, para aqueles tempos, era que Chiara e suas primeiras companheiras, para estimularem-se reciprocamente e crescerem juntas, contavam umas às outras os frutos que a vida da Palavra tinha provocado nelas.
Chiara escreveu: «A guerra continuava. Cada vez que a sirene do alarme tocava, a única coisa que podíamos levar conosco aos refúgios era o pequeno livro do Evangelho. O abríamos, e embora aquelas palavras já fossem conhecidas, pelo novo carisma se iluminavam, como se uma luz se acendesse, os corações se inflamavam e nos sentíamos impulsionadas a colocá-las em prática imediatamente. Todas nos atraiam e procurávamos vivê-las, uma por uma. Por exemplo, eu lia: “Ama o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 19,19). O próximo. Onde estava o próximo? Ali, perto de nós, em todas as pessoas atingidas pela guerra, feridas, sem roupas, sem casa, famintas e sedentas. E imediatamente nos dedicávamos a elas, de muitas maneiras.
O Evangelho garante: “Pedi e vos será dado” (Mt 7,7). Pedíamos o que os pobres necessitavam e cada vez recebíamos todo tipo de bens! Coisa extraordinária em tempo de guerra. Um dia, e este é um dos primeiros fatos, que sempre contamos, um pobre me pediu um par de sapatos n. 42. Sabendo que Jesus tinha se feito pobre com os pobres, dirigi ao Senhor uma oração. Estava na igreja de Santa Clara, ao lado do hospital que tinha o mesmo nome: “Dá-me um par de sapatos n. 42, para ti, naquele pobre”. Saindo de lá uma jovem me entregou um pacote, o abri e era um par de sapatos n. 42.
Lemos no Evangelho: “Dai e vos será dado” (Lc 6,38). Damos, e toda vez que damos retorna. Um dia tinha só uma maçã em casa e a demos a um pobre que pediu. Na mesma manhã um parente trouxe uma dúzia. Demos aquelas também, para outras pessoas que pediam, e à tarde chegou uma mala cheia de maçãs. Assim, sempre assim.
São fatos, um depois do outro, que surpreendem e encantam. A nossa alegria é grande e contagiosa. Jesus tinha prometido e cumpria a promessa. Ele não é uma realidade só do passado, mas do presente. E a constatação de que o Evangelho é verdadeiro colocava assas no caminho que estávamos iniciando. E a quem ficava curioso diante da nossa felicidade em tempos tão tristes, contávamos o que estava acontecendo, e eles percebiam que o que estavam vendo não eram só algumas jovens ou um movimento que nascia, mas encontravam Jesus vivo».

Jesus Eucaristia
A Eucaristia sempre teve um papel importante na vida de Chiara Lubich, desde a sua infância. Seja a sua vida pessoal, seja a de suas primeiras companheiras, assim como a de todo o Movimento, que se compôs nos anos, foi marcada pela Eucaristia. E não poderia deixar de ser assim, se se pensa que Jesus Eucaristia é a alma, o coração da própria vida da Igreja.
A ação do Espírito Santo, por meio do carisma da unidade, provocava em Chiara e nas suas primeiras companheiras uma forte atração, tanto que não viam a hora de ir à Missa, para partilhar toda a sua vida com Jesus Eucaristia. Mais tarde, quando começaram a viajar pela Itália, enquanto a paisagem passava, da janela do trem elas procuravam divisar as torres das igrejas, e com zelo dirigiam-se a elas, porque lá estava a Eucaristia, lá estava o Amor. Existe um elo maravilhoso entre a Eucaristia e a espiritualidade da unidade.
Chiara exprimiu-se assim, sobre este grandioso mistério: «O fato que, para dar início a este vasto movimento, o Senhor nos tenha concentrado sobre a oração de Jesus pela unidade, significa que Ele devia impelir-nos fortemente para o único que é capaz de atuá-la: Jesus na Eucaristia.
Como as crianças recém-nascidas nutrem-se instintivamente no seio materno, sem saber o que fazem, da mesma forma, desde o início do Movimento notou-se um fenômeno: quem dele se aproximava começava a frequentar a comunhão todo dia.
Como explicar isso? O que é o instinto para o bebê recém-nascido é o Espírito Santo para o adulto, recém-nascido para a nova vida que o Evangelho da unidade traz. Ele é levado ao “coração” da Igreja Mãe, e alimenta-se do néctar mais precioso que ela possui, no qual sente encontrar o segredo da vida de unidade, e da própria divinização.
A missão da Eucaristia, de fato, é tornar-nos Deus por participação. Misturando as carnes vivificadas pelo Espírito Santo e vivificantes de Cristo, com as nossas, nos diviniza na alma e no corpo. A própria Igreja poderia se definir como o “uno” provocado pela Eucaristia, porque composta por homens e mulheres divinizados, feitos Deus, unidos a Cristo que é Deus e entre si.
Este Deus conosco está presente em todos os sacrários da terra e recolhe todas as nossas confidências, alegrias e temores.
Quanto conforto Jesus Eucaristia trouxe nas nossas provações, quando ninguém nos dava audiência porque o Movimento devia ainda ser estudado! Ele estava sempre lá, em todas as horas, esperando por nós, para nos dizer: “no fundo, o chefe da Igreja sou Eu”. E nas lutas e sofrimentos de todo tipo, quem nos deu força, a ponto de pensar muitas vezes que teríamos morrido se Jesus Eucaristia e Jesus em meio, que Ele alimentava, não tivessem nos sustentado?».

Maria
Maria, a Mãe de Deus, esteve presente na vida do Movimento desde os primórdios, e ainda antes, como testemunha o fato de Loreto, em 1939, quando Chiara foi visitar a casa da família de Nazaré. Inúmeras vezes Chiara recordou um episódio, durante um terrível bombardeio que poderia ser fatal para ela suas primeiras companheiras. Naquele instante recordava ter percebido, pessoalmente, algo que se referia a Maria: «Coberta de poeira, que invadia todo o abrigo – ela contava – levantando-me do chão, quase por milagre, no meio dos gritos das pessoas, eu disse às minhas companheiras: “senti uma grande aflição na alma, agora, enquanto estávamos em perigo, a dor de não poder mais recitar, aqui na terra, a Ave Maria”. Naquele momento eu não podia captar o sentido daquelas palavras e daquele sofrimento. Talvez inconscientemente exprimisse o pensamento que, permanecendo ainda vivas, com a graça de Deus, teríamos podido dar graças a Maria com a obra que estava para nascer».
Por isso não surpreende que Obra de Maria seja o nome oficial do Movimento dos Focolares. Nem que tenha chamado “Mariápolis” os seus principais encontros, e que as suas pequenas cidades sejam “Mariápolis permanentes”, e que todos os centros de formação sejam definidos como “Centro Mariápolis”, e que Mariápolis seja também o nome de uma publicação.
Em 2000 Chiara escreveu: «Maria tinha usado para o nosso Movimento o mesmo método que utilizara para a Igreja: manter-se na sombra para dar todo o relevo a quem o devia ter, isto é, o seu Filho que é Deus. Mas quando chegou o momento do seu ingresso – por assim dizer, oficial – no nosso Movimento, ela se mostrou, ou melhor, Deus a revelou grande em proporção de quanto tinha sabido desaparecer. Foi em 1949 que Maria disse ao nosso coração, verdadeiramente algo de si. Aquele foi um ano de graças especiais, talvez um “período iluminativo” da nossa história. Entendemos que Maria, incrustada como rara e única criatura na Santíssima Trindade, era inteiramente Palavra de Deus, era toda revestida da Palavra de Deus. E se o Verbo, a Palavra, é a beleza do Pai, Maria, substanciada de Palavra de Deus, era de uma beleza incomparável.
Foi tão forte a nossa impressão, diante desta compreensão, que até hoje não podemos esquecê-la. Aliás, compreendemos como então nos parecia que somente os anjos poderiam balbuciar algo sobre ela. Vê-la assim nos atraiu e fez nascer um amor novo por Ela. Amor ao qual ela respondeu evangelicamente, manifestando-se mais claramente à nossa alma na sua realidade de Mãe de Deus. Theotókos. Não apenas, portanto, a jovenzinha de Nazaré, a mais bela criatura do mundo, o coração que contém e supera todos os amores das mães do mundo, mas: a Mãe de Deus. E naquele momento – não sem uma graça de Deus – Maria nos revelou uma dimensão de si mesma que, até então, para nós havia permanecido totalmente ignorada. Sim, porque antes víamos Maria diante de Cristo e dos santos – para fazer uma comparação – como no céu se vê a lua (Maria), diante do sol (Cristo) e as estrelas (os santos). Agora não. A Mãe de Deus abraçava, como um enorme céu azul, o próprio sol (…).
Mas esta nova, luminosa compreensão de Maria, não permanecia pura contemplação (…). Tornou-se claro que Maria representava para nós um modelo, o nosso “dever ser”, enquanto víamos cada um de nós como um “poder ser” Maria».
Jesus no meio
Desde o início as focolarinas fizeram uma experiência, que logo aprenderam a expressar com a frase “viver com Jesus no meio”. Talvez nada a possa explicar melhor do que as palavras dos discípulos depois do encontro com o Senhor ressuscitado em Emaús: «Não ardia o nosso coração enquanto ele conversava conosco pelo caminho?» (Lc 24,32). Jesus é sempre Jesus, e embora estando presente só espiritualmente, quando está explica as Escrituras e faz arder no peito a caridade de Cristo, a vida. E quando alguém o encontra exclama, com uma saudade infinita: «Fica conosco, Senhor, porque anoitece» (Lc 27,29). A experiência dos discípulos de Emaús é essencial para todos os que se referem à espiritualidade da unidade. Porque no Movimento nada tem valor se não se busca repetidamente a presença prometida por Jesus aos seus – «onde dois ou três estão reunidos em meu nome eu estou no meio deles» (Mt 18,20) -, uma presença que vivifica, alarga os horizontes, consola, estimula à caridade e à verdade.
Escreveu Chiara: «Tendo colocado o amor recíproco em ação, percebemos mais segurança na nossa vida, a vontade mais decidida, uma vida plena. Por quê? Foi logo evidente: por este amor concretizavam-se entre nós as palavras de Jesus: “Onde dois ou três estão reunidos em meu nome (ou seja, no meu amor) eu estou no meio deles” (Mt 18,20). Silenciosamente, como irmão invisível, Jesus se havia introduzido no nosso grupo. E agora a fonte do amor e da luz estava lá, em meio a nós, e não queríamos mais perdê-la. E compreendíamos melhor o que era a sua presença quando, por uma falta nossa, ela desaparecia.
Mas não é que naqueles momentos nós quiséssemos voltar ao mundo que tínhamos deixado. A experiência de ter Jesus em meio a nós era forte demais para que fôssemos atraídas pelas vaidades do mundo, que a sua divina presença havia reduzido às suas ínfimas proporções. Muito pelo contrário, como um náufrago se agarra a qualquer coisa para poder salvar a vida, assim nós procurávamos qualquer método sugerido pelo Evangelho para poder recompor a unidade rompida. E como dois pedaços de lenha cruzados alimentam o fogo, consumando-se, se desejávamos viver com Jesus constantemente presente entre nós, era preciso viver momento por momento todas aquelas virtudes (paciência, prudência, mansidão, pobreza, pureza…) exigidas para que a unidade sobrenatural com os irmãos nunca diminua. Entendíamos que Jesus em meio a nós não é um estado conquistado de uma vez por todas, porque Jesus é vida, é dinamismo (…).
“Onde dois ou mais”. Estas palavras divinas e muitas vezes misteriosas na sua atuação pareceram-nos maravilhosas. Onde dois ou mais… e Jesus não especifica quem, Ele deixa o anonimato. Onde dois ou mais… quem quer que sejam: dois ou mais pecadores arrependidos que se unem em seu nome; dois ou mais jovens, como nós éramos; dois, sendo um adulto e uma criança… “Onde dois ou mais”, e vivendo-as vimos desmoronarem barreiras de todos os tipos. Dois ou mais de pátrias diferentes: e caiam os nacionalismos. Dois ou mais de raças diferentes: e caia o racismo. Dois ou mais, inclusive entre pessoas que sempre foram pensadas como opostas, por cultura, classe, idade… todos podiam, ou melhor, deviam unir-se no nome de Cristo.
Jesus em meio a nós foi uma experiência formidável. A sua presença premiava de modo superabundante todo sacrifício feito, justificava todos os passos dados neste caminho, para Ele e por Ele, dava um sentido correto às coisas, às circunstâncias, confortava os sofrimentos, temperava a alegria excessiva. E quem, sem sutilezas e raciocínios, acreditava nas suas palavras com o encanto de uma criança, e as colocava em prática, gozava deste paraíso antecipado, que é o reino de Deus entre os homens unidos no seu nome».

Reproduzido pelo Blog do Ademir Rocha