quinta-feira, 15 de agosto de 2013

PENSAMENTOS E ESPIRITUALIDADE DA UNIDADE

PENSAMENTOS E ESPIRITUALIDADE DA COMUNHÃO

Centro Chiara Lubich Movimento dos Focolares
www.centrochiaralubich.org

(Transcrição de gravação)
Paderborn (Alemanha), 12 de Junho de 1999

Mostra-nos o Pai
Chiara: Estamos todos aqui reunidos, com o nosso arcebispo e com vocês, jovens. Que seja uma alegria passar esta hora juntos, vivendo o amor recíproco, para que Jesus esteja realmente presente entre nós, não só na Eucaristia, mas também espiritualmente.
O título do meu discurso, desta nossa conversa é um pouco original e enigmático. É: «Mostra-nos o Pai». Mas o que significa? Como o arcebispo referiu antes, é o pedido que o apóstolo Filipe fez a Jesus. Como vocês sabem, Jesus falava sempre do Pai, orientando todas as pessoas a Ele. Filipe ficou curioso e queria saber, queria conhecer o Pai. Também nós agora vamos tentar explicar quem é Deus Pai.
Vocês devem saber que eu pertenço a um Movimento chamado Movimento dos Focolares. Um dos Movimentos aos quais o papa no ano passado disse: "Vocês são uma expressão do aspecto carismático da Igreja".
O que significa esta palavra difícil: «carismático»?
Significa que a Igreja - como alguém ainda pensa ou pensava antes do Concílio - não é formada só pelo papa, pelos bispos, sacerdotes, religiosos, etc. Também eles representam a Igreja, são os primeiros. Porém, ela é formada por outra parte, da qual também nós participamos, que representa o aspecto definido "carismatico". Em palavras simples, fazem parte do seu aspecto carismático todos os maravilhosos Movimentos que nasceram na Igreja. Esses Movimentos são fruto de um "carisma". Mas o que é um carisma? Agora explico o que é.
Um carisma é uma luz que o Espírito Santo introduz na alma de quem ele escolheu para ser o fundador ou a fundadora de algo novo na Igreja. Em geral, essa luz ilumina uma verdade que já existe no nosso patrimônio de fé e o Espírito Santo a explica melhor a nós e com mais luminosidade, ou melhor, ele muitas vezes salienta ideias que já existem no patrimônio da Igreja, que servem para a humanidade da época.
Embora eu fosse uma simples jovem, como vocês podem se sentir, um dia também eu recebi uma luz como essa para que a transmitisse a muitos. Deus queria que nascesse um novo Movimento na Igreja.
Lembro que naquele período, em Trento, uma cidade no Norte da Itália, eu estava satisfeita com a minha fé. Ao mesmo tempo, porém, percebia algumas contradições em mim e nas pessoas que eu conhecia. Eram incongruências de que talvez vocês também se apercebam em vocês e em certos ambientes cristãos.
Por exemplo, eu me perguntava: «Por que a fé de quem se considera cristão muitas vezes se reduz em ir à missa aos domingos?» Quando se ia à missa aos domingos! Eu pensava: «Por que as pessoas rezam com tamanha distração, quando rezam, ou ao máximo só de modo interessado? Deus não é o Deus de todos os dias e momentos da nossa vida? Se a oração é um diálogo com Deus, não seria uma coisa séria?
Eu me perguntava também: «As pessoas da Igreja, que eu tanto amava, se contentam com as cantilenas das orações sem alma, com os pacotinhos dados aos pobres sem amor, com a falta de gosto nos ambientes e no modo de se vestir?» Eu me perguntava: «Deus, além de ser bondade e verdade, não é também beleza, harmonia? O seu Filho não é o mais belo dos filhos dos homens?»
Não era pouca aquela hora de apostolado que se fazia por semana ao lado de todas as atividades? O que se refere a Deus não é mais importante do que tudo?
Por que a palavra "sermão" tornou-se sinônimo de discurso monótono e antipático?»
Centro Chiara Lubich Movimento dos Focolares
www.centrochiaralubich.org
Eu me fazia outra pergunta muito importante: «Não é estranho que, visitando um país cristão, notávamos que quase nada o diferenciava dos países não cristãos?»
No período em que estas incoerências me oprimiam e faziam sofrer, aconteceu uma coisa: o Espírito Santo se manifestou. Não lembro exatamente quando. A sua luz sutil começou a penetrar em mim e a iluminar muitas verdades do nosso cristianismo.
Mas eis um fato. Eu era professora e dava aulas. Um dia alguém bateu à porta da minha classe. Era um sacerdote que queria falar comigo. Eu tinha muita fé na Igreja e nos sacerdotes. Para mim eram "homens de Deus" e acreditava nisso. Esse sacerdote deve ter percebido que eu era cristã praticante. Por isso perguntou se eu podia oferecer uma hora do meu dia pelo seu apostolado.
Reconhecendo nele um homem de Deus, respondi: «Só uma hora? Por que não o dia todo?»
Comovido com a minha generosidade juvenil, ele me disse para ajoelhar, me abençoou e fez uma afirmação super importante: «Deus a ama imensamente». Parecia que aquelas palavras vinham diretamente de Deus e marcaram a minha alma como o fogo. «Como? – eu pensei; Deus me ama imensamente? Sim, foi o sacerdote que disse: "Deus te ama imensamente"». Repeti a mim mesma essa frase e às minhas primeiras companheiras, no Movimento que começava. Eu dizia: «É incrível! Deus me ama imensamente. Deus te ama.»
Deus é Amor!
Hoje, queridos jovens, pode ser que a todos vocês, talvez por meio destas simples palavras, Deus queira se manifestar por aquilo que é e vocês ainda não sabem. Se for assim, tomem consciência, deixem-se convencer, persuadir profundamente e fiquem reconhecidos. Desse modo, também na vida de vocês tudo mudará como aconteceu conosco. Não só os fatos positivos, mas também os transtornos da guerra, que havia na época, tudo era movido por um específico plano de Deus, da sua vontade.
Tratava-se de descobri-la. De fato, para aqueles que o amam, ele faz concorrer tudo para o bem.
Lembro que apesar da guerra o sorriso despontava continuamente nos nossos lábios.
Logicamente, as pessoas que nos circundavam não sabiam de nada. E nós, graças a Deus, acreditávamos no seu amor. Isso constituiu a novidade da nossa nova vida. Foi então que começamos a entender várias frases que antes não entendíamos, não nos tinham tocado.
Víamos que inclusive no Antigo Testamento Deus se manifesta como amor. Por exemplo, está escrito: «Sião disse: "O Senhor me abandonou, o Senhor me esqueceu".» E Deus responde: «Uma mãe se esquece do seu filho a ponto de não se comover pelo filho das suas entranhas?» E Deus continuava: «Ainda que estas mulheres esquecessem, eu jamais te esquecerei. Eu te desenhei na palma de minhas mãos" (cf Is 49,14-15).
Agora procuremos ver o que Jesus disse sobre o Pai. Jesus trouxe uma grande novidade. Como ele descreve o amor do Pai?
Por exemplo, ele diz: «Olhai as aves do céu: não semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros. E, no entanto, o vosso Pai celeste as alimenta. Ora, não valeis vós mais do que elas? (...)». Era como dizer: «Imaginem o que faria por vocês, se acreditassem no meu amor»
Diz ainda: «Por que andais preocupados com a roupa? Aprendei dos lírios dos campos como crescem e não trabalha nem fiam. E, no entanto, eu vos asseguro que nem Salomão, com toda a sua pompa, se vestiu como um deles» (Mt 6, 26-29). Seria como dizer: «Imaginem o que faria por vocês, se acreditassem no meu amor!»
Podemos descobrir melhor como é o amor de Deus, lendo a parábola do filho pródigo. Todos vocês a conhecem, por isso não vou lê-la. Farei apenas uma pequena observação.
Imaginamos que o pai tinha muito trabalho: administrar a fazenda, seguir os dependentes, a família mas acima de tudo ele estava sempre à espera. À espera de quem? Do filho que tinha ido embora. Todos os dias ele subia à torre de sua casa e olhava ao horizonte.
Centro Chiara Lubich Movimento dos Focolares
www.centrochiaralubich.org
O Pai Celeste faz o mesmo conosco. Imaginem, jovens, se puderem, a divina, altíssima e dinâmica vida trinitária de Deus. É uma vida vertiginosa! Não é como às vezes a imaginamos. Pensem na sua atividade contínua que sustenta a criação. Ele indica o lugar a quem chega ao Paraíso. No entanto, vocês sabem o que ele faz acima de tudo? Ele espera. Ele espera. Quem? Nós, eu, vocês, sobretudo se estivéssemos afastados dele.
Um dia esse filho, que o pai terreno tanto amava e esperava, tendo esbanjado todos os seus bens, volta para casa. O pai o abraça, veste-o com uma roupa fina, coloca um anel em seu dedo, pede que se cozinhe um novilho gordo para a festa.
O que isso nos faz pensar? Que Ele deseja ver o seu filho todo renovado. Não quer lembrar como ele era antes. O Pai não só quer perdoá-lo, mas inclusive esquecer o seu passado. Este é o seu amor por ele. Assim é o amor de Deus Pai por nós Se depois de nos termos comportado mal, voltarmos para ele, ele nos abraçará, perdoará, mas a coisa extraordinária é que ele se esquecerá de tudo.
O amor do Pai é assim. Aqui na terra não se encontra outro igual.
Recentemente vi um documentário. Pode ser que também vocês tenham visto. Apresentava e examinava os detalhes de um famoso quadro de Rembrandt, que retrata o pai, na narração evangélica, que acolhe o filho que volta. São belíssimos todos os pormenores. Mas o que mais impressiona são as mãos do pai. O pintor teve uma ideia. Uma é robusta e forte, como a mão de um homem, e a outra é delicada, é mais fina, como a mão de uma mulher. Não era assim na realidade. Foi como idealizou o artista. Com isso o pintor quis exprimir que o amor do Pai é ao mesmo tempo paterno e materno. E também nós devemos pensar assim. Em Deus Pai encontramos tudo: o pai e a mãe.
Qual foi o melhor modo que o Pai usou para nos demonstrar o seu amor? Ele, que é o amor? Todos vocês sabem, pois é o que se diz, mas é um mistério insondável, que foi no momento em que o Pai, de acordo com toda a Santíssima Trindade, mandou o seu Filho sobre a terra por nós. Realmente foi ele o primeiro a amar. Jesus então se encarnou. Ele nada mais é que a imagem do Pai; é a sua expressão, o seu esplendor, a sua beleza, a beleza do seu amor. De fato, quando Filipe lhe perguntou: «Mostra-me o Pai», ele respondeu: «Quem me vê, vê o Pai» (Jo 14, 9).
E sabemos até aonde chegou o amor de Jesus? É algo difícil de entender totalmente. Até a morrer por nós. Mas não só como pensamos normalmente. Na cruz ele experimentou uma morte muito mais atroz do que a física. Vocês se lembram que todos o abandonaram. Ele experimentou ali o máximo sacrifício por nós. E teve a impressão de que o próprio Pai o havia abandonado. Porém, ele continuou a acreditar no seu amor. E com aquela dor, na paixão, ele nos salvou.
Depois Jesus ressuscitou e subiu aos Céus, mas não nos abandonou. Quis disseminar na terra a sua presença, tão grande é o seu amor.
Podemos encontrá-lo na Eucaristia, em todas as igrejas. Podemos amá-lo em cada irmão. Que vantagem para mim poder amar 1.500 pessoas! Podemos ouvi-lo nos nossos bispos. Podemos usufruir da sua presença espiritual entre nós. Podemos descobri-lo nas Escrituras.
Deus, Deus, Deus. Deus presente no mundo, em todo o lugar, porque ele é amor.
Naquele período éramos quase os únicos a evidenciar que Deus é amor. A Igreja confirmou um pouco mais tarde esta nossa redescoberta.
Paulo VI, em 1968, comentando o Credo, definiu Deus assim: «Ele é aquele que é... e Ele é Amor»1. Esta definição mais explícita de Deus, dada por um Papa, e com a nossa vida podiam provocar uma revolução no mundo, uma renovação na Igreja e em todos.
Uma coisa é sabermos que Deus existe, outra é sentir-nos amados em todos os pormenores por Deus. Tudo se transforma. Sentimos uma grande coragem! Não sei se todos fizeram essa experiência,
1Insegnamenti di Paolo VI, 1968, VI, p.302.
Centro Chiara Lubich Movimento dos Focolares
www.centrochiaralubich.org
mas creio que aqui estejam namorados, mães, pais. Eles entenderão o que vou dizer. Quando uma jovem sabe que alguém a ama, a sua vida muda, tudo ao seu redor adquire novo encanto e cada particular adquire valor. Ela mesma tende a ser mais bondosa e compreensiva para com os outros. É assim.
Pois bem, infinitamente mais forte é a experiência do cristão quando adquire uma compreensão mais profunda da verdade de que Deus é Amor.
(…)
Chiara Lubich

Reproduzido pelo Blog do ADEMIR ROCHA, de Abaetetuba/PA

Nenhum comentário:

Postar um comentário